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Por Sindipetro em 14/12/2017 15:53

Gentil Costa, PRESENTE!

De menino de bagaceira na Zona da Mata paraibana, para a Escola de Aprendizes de Marinheiro, no Recife. Do Recife, para Nova Jérsei, Estados Unidos, onde obteve sua formação profissional na US Navy Boiler School. De Nova Jérsei, para o Rio de Janeiro e, do Rio de Janeiro, para a Bahia, para Sergipe, para a Paraíba, para o mundo ...

Eis a trajetória sintética de um homem comum, que, como todos os demais homens comuns, era incomum; um homem raro e singular. Gentil Pereira da Costa, nosso pai e avô, era um paraibano antiquado em certos modos e ideias, sendo, ao mesmo tempo, um homem moderno, crédulo na tecnologia e desenvolvimentista. Era rude e forte, mas doce e meigo. Como, às vezes, ele mesmo dizia, era um bruto que amava ...

Seu caráter era tradicional, muito correto, honesto, autêntico, franco, direto. Era o caráter de um homem de palavra. Esta lhe era o bastante. E ele a honrava, porque cria na honra de um homem de palavra, sem meias palavras.

Era um homem laborioso, animado, provedor do lar, pai presente, cuidador, muito zeloso de suas crias, exigente com a ilustração e com a educação das mesmas, com o dizer a verdade e, sobretudo, com o assumi-la, com o sustentá-la, independentemente das circunstâncias, afinal, ao final de tudo, a verdade sempre vence ...

Assim, nosso pai e avô, operário, negro e socialista, se apresentou para as lutas da vida. Na juventude, no entremeio da Marinha de Guerra e de serviços prestados a um estaleiro, envolveu-se, por amizade, com o movimento de emancipação dos trabalhadores braçais do porto do Rio de Janeiro. Para a defesa desses companheiros, num dado evento cívico, com desfile de Juscelino Kubitschek em carro aberto pelas ruas da então Capital da República, subiu num poste e gritou em alta voz: - “Senhor Presidente, um grupo de operários brasileiros precisa falar com Vossa Excelência”. Recebeu, como resposta, um aceno de JK e, em conjunto com alguns trabalhadores braçais não sindicalizados e excluídos das atividades de carga e descarga portuária, foi recebido pelo Presidente da República, no Palácio do Catete, Rio de Janeiro. O porto, então, se transformou num lugar adverso, já que passou a ser perseguido pelos que não concordavam com o movimento que ajudou a encetar.

Já petroleiro, ou seja, já funcionário concursado e de carreira da Petrobrás, nosso pai e avô participou ativamente das lutas em prol da emancipação da classe operária brasileira e da democracia. Esteve em Havana, Cuba, no Primeiro – e, até aqui, único – Congresso Internacional de Petroleiros. Uma das tarefas tiradas nesse encontro foi a de capacitar trabalhadores cubanos para funcionar e operar a refinaria de petróleo nacionalizada pela Revolução. Nosso Gentil Pereira participou dessa formação dos companheiros daquele país e viveu uma experiência de organização universal dos trabalhadores.

Na ocasião, também se voluntariou para o plantio da cana de açúcar n’A Ilha e, foi recrutado para o pelotão comandado por ninguém menos do que Ernesto Guevara de la Serna, El Che. Sendo este Ministro da Indústria, a ele, nosso pai e avô se dirigiu com o pronome de tratamento “Excelência”, mas ouviu de Che: - “Mira, aca, no hay excelência; aca somo todos hermanos”. Tornaram-se camaradas, então, e, com Che, ele tinha mais outras histórias a contar. Na volta ao Brasil, passou a defender a democracia, o patrimônio nacional, a manutenção do Governo João Goulart, enfim.

Com a ditadura civil-empresarial-militar, foi preso entre treze e catorze vezes, sendo, também, torturado. Numa fuga, para evitar uma nova prisão, parou na Bahia, onde constituiu família e acomodou-se, até o final dos anos 1970, quando, ao lado de velhos e valorosos companheiros das velhas lutas na Petrobrás, participou da fundação da

ABRASPET, no Rio de Janeiro. Na Bahia, mesmo vigendo o final dos anos de chumbo, participou da retomada do Sindiquímica, por uma chapa de efetiva representação dos trabalhadores. Na FAFEN-Sergipe, participou da fundação da APEQ, participando, ainda, do Sindipetro SE/AL. Igualmente, apoiando os companheiros do MST, militou para a ocupação e para a formação do Quissamã. Enfim, ao lado de homes e mulheres plenos de fraternidade e de muito valor humano, lutou pela construção de um Brasil melhor e fê-lo, simplesmente, por ideal, por acreditar. Foi um combatente nosso velho pai e avô e nos deixou “soldados”. Marcharemos em frente. Levaremos a sua bandeira, da mesma forma como ele fez, verdadeiro, humilde, anônimo, heroico ...

Viveu muito o Sr. Gentil; em seus oitenta e seis anos, viveu muito e muito intensamente: participou da formação do Brasil moderno, lutando, sempre, pelos direitos dos trabalhadores e, sobretudo, dos funcionários da Petrobrás. Combateu a ditadura civil-empresarial-militar. Foi preso por ela e torturado. Conheceu personagens da história do Brasil e do mundo. Casou, constituiu família, pai presente e amoroso, integrou-se ao seleto grupo de homens que podem receber o título de “melhor pai do mundo”.

E, assim, permanecerá presente, permanecerá vivo em nós, seus filhos e seus netos, pelos múltiplos exemplos de coragem, de ímpeto, de intensidade, de perseverança, de autenticidade, de honestidade, de verdade, de estudo, de humildade, de caridade, de resistência, de resiliência, de cuidado com o outro, de alegria, de amor, enfim.

Igualmente, com uma tranquilidade intensa, ele passou para a eternidade: faleceu em decorrência de um tumor de Klatskin, que lhe obstruiu as vias biliares e cujos efeitos lhe levaram a duas paradas cardiorrespiratórias. Quase não sofreu o Sr. Gentil, sequer teve tempo de saber da patologia que tinha. Foi tudo muito rápido, verificando-se, antes de nada, a presença misericordiosa de Deus, que lhe deu momentos finais cheios de serenidade. De mais além, a presença carinhosa da fiel e leal companheira de quase cinquenta anos de vida em comum, dos filhos, de vários familiares. Estava muito bem cuidado, muito amado, muito acolhido em suas horas finais. Eis a bênção divina na vida de um homem bom, justo e verdadeiro.

A todos que nos confortam, muitíssimo obrigada. Decerto, painho se encontra em excelente lugar, ao lado do Senhor Jesus Cristo ...

Gentil Costa, PRESENTE!

Com todo amor de nossos corações,

Mariana, Marcus, Martha, Maurício, Marina e Marília

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