Categoria: Notícias

Por Sindipetro em 28/06/2018 14:08

Dossiê sobre participação da Cia das Docas na ditadura militar foi entregue à PGR em Brasília nesta terça-feira (26)

Documentos inéditos da ditadura militar que revelam a colaboração da administração do Porto de Santos (SP) com o regime militar brasileiro de 1964-1985 foram entregues na Procuradoria Geral da República nesta terça-feira (26), em Brasília (DF) pela advogada Ana Lucia Marchiori, pela docente da Universidade Federal de Roraima, Adriana Gomes Santos, uma das responsáveis pela pesquisa, e pela pesquisadora Milena Fontes . Monitoração e facilitação de prisão de trabalhadores, assim como beneficiamento econômico estão entre as ações criminosas cometidas pela Companhia Docas de Santos e Codesp (Cia. Docas do Estado de São Paulo).

São mais de 3.000 documentos que foram analisados para a elaboração do dossiê. “Comprovamos o envolvimento de ambas as empresas em crimes de graves violações dos direitos humanos durante a ditadura civil-militar e também que esse processo repressivo serviu para ambas auferirem enormes ganhos adicionais conseguidos com a repressão”, afirma uma das pesquisadoras responsáveis pelo projeto, Adriana Gomes Santos, docente da Universidade Federal de Roraima.

O documento consta de inúmeros casos de delação, perseguição, demissão e prisão a trabalhadores. Na introdução, um fragmento da perseguição cometida aos portuários sindicalistas já na instalação da ditadura militar. O depoimento foi prestado pelo trabalhador Osny Neri dos Santos à Fundação Arquivo e Memória de Santos:

“No dia 31 de março, nós tivemos reunido no nosso Sindicato, no da Administração. (…) E nós estávamos aí apreensivos, porque parece que (…) tava pra ter golpe e tal. Mas nós éramos meio céticos, não távamos acreditando. Embora aí já houvessem aquelas passeatas com ‘Deus pela Liberdade e a Família’ e tal. (…) Então, nós estávamos lá no Sindicato, dia 31, aí houve um telefonema do Rio, não sei se o Pacheco ou o Moreira: ‘Olha vocês se guardem, porque o negócio tá ruim aqui; eles vão botar as tropas na rua’.

(…) Nós fomos pra casa e ficamos ouvindo a rádio até de madrugada. (…) Chego lá, e o Sindicato tá coberto de tropas, aí, da Marinha e fechado. Não entrando ninguém. Entrou diretor, eles prendem. Aí, eu fiquei de longe, dei meia volta, voltei. (…) Nós ficamos aí, rodeando, e o circo apertando. Aí, eu fui para São Paulo, fiquei lá quase 20 e poucos dias, e voltei porque a minha filha estava com pneumonia e eu morava na rua atrás do Sindicato, mas antes de ir visitar a filha, eu fui falar com o interventor do Sindicato. Ele disse: ‘Puxa, olha, tu tem que ir na Capitania se apresentar, porque senão eles vão te pegar e te matar aí na rua; a ordem é para atirar em você. Tu quer ser apresentar ou quer ser preso? Tu vai ser preso de qualquer maneira (…) Se você se apresentar, você tem garantias de vida; se você não, eles vão te matar na rua’. ‘Tudo bem, então se vocês quiserem, me procurem na minha casa.’ (…) Aí me prenderam; eu fui pra lá e fiquei 7 meses. (…)

(…)Todo mundo temia a gente, porque os nossos nomes saíam na televisão como perigosos; (…) ninguém dava emprego.”

Militares no sindicato
Militares no sindicato
 

Navio-prisão

O navio-prisão “Raul Soares”, que ancorou em Santos em 24 de abril em 1964, é um dos aspectos da atuação perversa das empresas e militares contra os trabalhadores. Ali, por mais de 180 dias, foi criada uma prisão marítima para receber presos políticos ou os que estavam sendo perseguidos, entre eles dirigentes sindicais, ativistas e até militares. Sofriam pressões psicológicas, isolamento em solitárias, torturas e condições precárias.

 


Raul Soares permanece por mais de seis meses em Santos

Não havia acesso a banheiros, camas, comiam com as mãos e ficavam amontoados em pequenas celas, vítimas de todos os tipos de abusos e torturas.

Uma pasta estragada preparada a base de arroz e feijão era proposital para provocar diarreias e consequentes desidratações.

Os presos eram até conviver com ratazanas famintas, milhares de percevejos e pulgas.

O navio era dividido em três calabouços e cada um tinha um tipo específico de tortura. Um deles, enferrujado e sem janelas tinha temperatura em torno de 50ºC, próximo as caldeiras. Ou outro ficava com 50 cm de água. O terceiro, era o local onde os presos ficavam com as fezes ‘armazenadas’ dos prisioneiros.

Um dos casos que constam do relatório é de Ademar dos Santos, do Sindicato dos Operários Portuários, que foi perseguido, preso e passou 92 dias em isolamento no navio-prisão em condições sub-humanas.


 

“A Cia Docas de Santos, além de articular e financiar o Golpe de Estado, cumpriu o papel de organizador do processo repressivo na Orla do Cais e na própria cidade de Santos, conforme comprovamos na representação”, salienta Adriana a partir dos casos investigados nos documentos.

A administração do porto ficou a cargo da Companhia Docas de Santos até 1980. A era empresa privada, mas obteve a concessão por 90 anos. Só nos anos de 1980 foi repassada para responsabilidade da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp).

Em setembro de 2017, a Volkswagen foi denunciada no Ministério Público de São Paulo pelo mesmo motivo: envolvimento com o regime militar e perseguição aos trabalhadores da empresa.

A denúncia foi preparada a partir do trabalho de pesquisa do Grupo de Trabalhadores na Comissão Nacional da Verdade, que reuniu representação de todas centrais sindicais brasileiras e do qual a CSP-Conlutas também fez parte.

Fonte: CSP-Conlutas

Outras da mesma categoria:

+ Ver Todas as Notícias