Categoria: Notícias

Por Sindipetro em 29/10/2019 12:54

Privatizações, diminuição de investimentos e aumento de custos operacionais: mais do mesmo no novo resultado financeiro da Petrobras

Eric Gil Dantas[1], pelo IBEPS

A Petrobras publicizou mais um resultado financeiro “positivo” no terceiro trimestre deste ano. Nele, a estatal informou que seu lucro líquido foi de R$ 9,09 bilhões, enquanto já acumula no ano um lucro líquido de R$ 31,99 bilhões. Se compararmos com o mesmo trimestre do ano passado temos um crescimento de 36,8%, e no acumulado do ano o aumento foi de 35,1%, se comparado com os mesmos 9 meses do ano de 2018.

São basicamente dois os fatores que explicam este crescimento: (i) o aumento da produção de petróleo e gás da Petrobras, já anunciada uma semana antes; e (ii) o dinheiro que veio da privatização da BR Distribuidora, R$ 13,9 bilhões – mais do que todo o lucro líquido do trimestre.

O pré-sal já responde hoje por 60,4% de toda a produção da estatal (para toda a extração de petróleo e gás do país este número foi de 63,4% em agosto deste ano, segundo a ANP), e isto ajuda a aumentar a produção ao mesmo tempo que diminui seus custos. O “custo caixa de extração” (lifting cost), que é o custo de extração do óleo e gás, no pré-sal, para se ter uma ideia, é de 5 dólares, enquanto que no pós-sal é de 14,21 dólares, em águas rasas de 30,56 dólares e em terra de 18,19 dólares. Esta produtividade no pré-sal é comparável ao de grandes produtores como a Arábia Saudita[2]. O pré-sal também foi responsável por quase a totalidade do aumento da produção da Petrobras. Como a estatal já havia divulgado há duas semanas, a produção de petróleo e gás subiu 9,3% no 3º trimestre, sendo que no pré-sal o crescimento foi de 17%, enquanto que no restante o nível de exploração ficou praticamente estagnado. Em síntese, a primeira explicação do aumento do lucro é por colher os frutos do pré-sal.

Já as privatizações não só mexeram no caixa da Petrobras injetando dinheiro, como me referi à BR Distribuidora, mas também aumentando os custos operacionais da empresa. Como já tratei em artigo anterior[3], os resultados financeiros da estatal novamente mostram o absurdo aumento dos gastos por conta da venda dos seus gasodutos. Como a própria Petrobras expõe no seu release, “No 3T19, as despesas com vendas e gerais e administrativas foram de R$ 7,0 bilhões, um aumento de 19,1% em relação ao 2T19, principalmente devido ao aumento dos gastos logísticos para a utilização dos gasodutos. Excluindo esse efeito as despesas com vendas e gerais e administrativas não teriam variado em relação ao 2T19”[4] (p. 10). No entanto, diferentemente do documento do trimestre anterior, a Petrobras não dá mais detalhes dos custos desta privatização. Em 2019 já foram assinadas privatizações que totalizaram US$ 15,334 bilhões, o que daria no câmbio de hoje mais de R$ 61 bilhões. Além disto a Petrobras já iniciou o processo de venda na fase não vinculante de sete refinarias e um campo terrestre e na fase vinculante outras várias empresas e campos.

Junto ao “desinvestimento” também vem a queda dos investimentos. Contabilizando os 9 meses deste ano, temos que a Petrobras investiu 25,3% a menos do que no mesmo período do ano anterior. Contraditoriamente ao discurso dos atuais dirigentes da empresa, com o discurso do foco na exploração e produção, tivemos que neste ano houve um investimento 32,5% menor para este segmento. Este valor já vem caindo ao longo dos últimos anos, passando de US$ 11,59 bilhões nos 9 primeiros meses em 2016 para US$ 7,56 até setembro deste ano, um investimento 35% menor em apenas 3 anos. Esta diminuição de investimentos está totalmente de acordo com a política que vem sendo adotada para a petrolífera: privatizações (com o dinheiro sendo embolsado pelos acionistas ou pelos bancos credores) e saída de outros setores que não o de exploração.

Nada temos a glorificar a gestão atual. O aumento do lucro da Petrobras é resultado do esforço anterior da empresa, encontrando e viabilizando o pré-sal, e não da tentativa de sua autodestruição com privatizações e autoboicotes. Com o aumento das privatizações e entrega de novos campos de petróleo para empresas estrangeiras só temos certeza de uma coisa, jogaremos o que achávamos que seria o futuro do país, a renda do pré-sal, no bolso de muitos bilionários por aí.

[1] Economista do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (IBEPS), é doutor em Ciência Política.

[2] https://exame.abril.com.br/negocios/custo-de-extracao-da-petrobras-se-aproxima-de-paises-do-oriente-medio/

[3] https://www.sindipetrosjc.org.br/p/1497/ja-e-oficial-privatizacao-da-petrobras-da-prejuizo-para-o-brasil

[4] https://www.investidorpetrobras.com.br/ptb/15914/RMF3T19_Portugues_v2.pdf

Fonte: Sindipetro SJC

Outras da mesma categoria:

+ Ver Todas as Notícias